Criar flog

24/10/2026 - 23:01 0
Apostulado

No começo, foi difícil começar a escrever. Fazia anos que eu não me colocava diante de uma folha de papel. Logo eu, que escrevia como se fosse a coisa mais simples do mundo, só para aliviar as carências do meu coração.

Pois bem, trago aqui, no decorrer da minha fala e da minha existência, uma história. Longa e deprimente, talvez, sobre os primeiros passos da minha vida. Sinceridade? Talvez. Medos e inseguranças? Provavelmente.

Tudo começa em um lar oblíquo, onde o ar parecia normal aos olhos de quem enxergava de longe — de quem não sentia a dor, tampouco a mesmice do dia a dia.

Era eu uma criança de longos cabelos pretos e olhos profundos, dona de uma imaginação fértil e de pensamentos que pareciam nunca encontrar limites. Não sabia ao certo como enfrentar aquele mundo tão complicado e vasto, tampouco entendia por que precisava conhecê-lo tão cedo.

Estava aos cuidados de uma família que, em um primeiro momento, parecia me fazer bem. Errada estava eu em pensar que algum dia sequer aquilo havia sido acolhimento.

Vivi, e ainda vivo, anos da minha vida em confronto com a hipocrisia e o narcisismo. E eu, tão insignificante aos pés daqueles que, aos olhos de todos, beiram a perfeição, mas que, em meio à escuridão do lar, revelam-se impotentes e desprovidos de qualquer escrúpulo.

No início, tentei me sentir viva, escondendo-me nos meus próprios pensamentos, sem interferências, sem culpas. Até que meu casulo já não era mais suficiente. Eu havia perdido minhas válvulas de escape e, por muitos e muitos anos, fiquei sem ter onde me esconder.

Não porque já não fossem suficientes, mas porque haviam se tornado acessíveis a eles.

Tudo passou a ser controlado. Eu me sentia como uma verdadeira marionete, sendo exposta a todas as situações das quais um dia tentei fugir. Nada mais me bastava, nada mais parecia útil. Eu já não servia para nada.

E foi nesse momento que tudo começou a desmoronar.

Deparei-me milhões de vezes em meu quarto escuro e vazio, com medo de mais julgamentos e ameaças, escondida em meio aos lençóis, pedindo para que tudo aquilo acabasse. Se de fato existisse algum Deus capaz de me escutar naqueles momentos, eu só lhe pedia uma coisa: que me desse a oportunidade de não mais pertencer a este mundo.

Demorei anos para aprender que aquilo jamais mudaria com o passar do tempo. Os julgamentos continuariam até que eu me tornasse adulta e se tornariam ainda mais cruéis a partir do momento em que eu batesse de frente com tudo aquilo que me afligia e tentasse recuperar a inocência e a vida que, pouco a pouco, haviam tirado de mim.

Gostaria muito de terminar tudo isso com um final feliz, mas esse final ainda não aconteceu — e temo que demore a acontecer.

Já não consigo mais lutar contra essas pessoas. Não tenho a mesma força que carregava anos atrás, apesar de tantas vezes ter me colocado na linha da morte. Já não tenho pensamentos nos quais me esconder, tampouco meios para fugir.

A única coisa que me resta são falsas lembranças boas que, às vezes, fazem com que eu perdoe atitudes imperdoáveis e reescreva os meus próprios sentimentos. Na maioria das vezes funciona, mesmo que seja apenas por alguns dias. Mas tudo sempre volta. Todas as vezes.

A diferença é que já não se trata de críticas infantis. Agora são julgamentos sobre quem sou, sobre minha aparência, minhas escolhas e tudo aquilo que constitui a minha existência. Sinto o peso de cada palavra que demonstra a falta de orgulho que sentem de mim e a inutilidade que atribuem à minha presença aqui.

E talvez essa seja uma das partes mais dolorosas de admitir: mesmo que eu dedicasse cem por cento da minha vida a eles, jamais seria suficiente.

Pensar que estou sendo egoísta demais, de alguma forma, me conforta. Pensar que talvez a culpa de tudo realmente seja minha, ou que tudo não passe de fruto da minha imaginação, torna a realidade, por alguns instantes, mais fácil de suportar.

Ainda que essa dor me isole e, tantas vezes, me faça perder as esperanças, acredito que um dia conseguirei escapar desse vício de ignorar os meus próprios sentimentos — e, quem sabe, finalmente aprender a acreditar neles.



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