Universos inteiros {...}
Hoje eu sentei no ônibus, indo pro cinema e fiquei observando as pessoas, observar as pessoas é algo que eu faço em demasia, isso em todo lugar que vou e estou. No ônibus, tinha uma mulher segurando a marmita no colo como se fosse algo frágil demais pra balançar, tinha um homem encostado no vidro, olhando o próprio reflexo como quem tenta se reconhecer, tinha uma senhora contando moedas na bolsa devagarinho, como se cada uma fosse uma decisão e ninguém ali sabia da vida do outro. É estranho pensar nisso, a gente cruza com histórias inteiras todos os dias, medos, lutas, sonhos, frustrações e só enxerga o lado de fora, a roupa, o cabelo, a expressão neutra, mas por dentro cada um está vivendo um capÃtulo que talvez esteja pesado demais. Talvez alguém ali esteja tentando não desistir, talvez alguém esteja voltando para casa depois de um dia em que quase chorou no banheiro do trabalho, talvez alguém esteja carregando uma notÃcia que mudou tudo e mesmo assim o ônibus segue, o trânsito anda, o mundo não para. Ãs vezes eu acho que a vida é isso, um monte de pessoas tentando ser fortes em silêncio e a gente também. A gente acorda, organiza o que dá, respira fundo e vai mesmo quando não está tudo bem, mesmo quando tem medo, mesmo quando parece que ninguém percebe o esforço que é simplesmente continuar. Tem dias em que ser adulto é pagar boleto com o coração apertado, tem dias em que ser forte é responder estou bem, só pra não ter que explicar o cansaço, tem dias em que a maior vitória é não ter desmoronado. Mas sabe o que eu aprendi, é que quase todo mundo está fazendo o melhor que pode com o que tem, mesmo quando parece pouco, mesmo quando parece bagunçado, mesmo quando ninguém aplaude. A mulher da marmita talvez esteja sonhando com algo maior, o homem do reflexo talvez esteja tentando se encontrar, a senhora das moedas talvez esteja vencendo uma batalha que ninguém vê. E eu ali, no meio de todos eles, percebi uma coisa simples e enorme, a gente não precisa saber a história inteira de alguém pra oferecer gentileza, um sorriso não resolve a vida de ninguém, mas pode ser o único gesto leve num dia pesado. Talvez o mundo não esteja tão duro quanto parece, talvez a gente só esteja cansada demais pra enxergar que todo mundo está de algum jeito tentando sobreviver com dignidade. No fim somos só isso, pessoas comuns em ônibus comuns, vivendo dias comuns, mas carregando dentro do peito universos inteiros. E continuar, mesmo assim, já é uma forma silenciosa de coragem.
— .(Escrito dia 05/03/2026, às 15:12).


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